Contrastes do suposto social

Arranha-céus ofuscam o horizonte
Moldura esculpida do lixo ao luxo
Sonhos e mais sonhos à beira mar
Pesadelo na beira do córrego sujo

Em ônibus lotado a cinco da manhã
Trabalhadores atravessam a cidade
Como ovelhas na presença de lobos
São subjugados como inferioridade

Apesar, vozes ecoam dos findados
Independentemente dos insumos
Talentos escalam o fundo do poço
Olhos sedentos ao topo do mundo

Os proletariados regem as cidades
Mas são discriminados pela sua cor
Como se no branco coexistisse paz
Como se no preto ausentasse amor

Irracional distúrbio segregacionista
No leito de morte somos todos um
Porém, o argumento não convence
Ódio propaga como senso comum

Reivindicações avançam lentamente
Pois os movimentos são dissociados
O único caminho para revolucionar
É o caminho do sangue derramado

Enquanto isso, a indústria estuda
Novas formas de entretenimento…

Diego Rodrigues Silva Aguiar
© Todos os Direitos Reservados

Infindável mundo da descoberta

Luminária ao canto esquerdo, escrivaninha envernizada e ambiente meia luz. De minha parte, olhar enigmático, todos aqueles detalhes já eram habituais, exceto um título dentre todos os outros na estante, que a princípio incomodará. Não me contive, precisava saciar aquela angústia e descobrir o que tinha por trás da capa em brochura, e logo folheando os poemas, as horas tornaram-se minutos, e a velha poltrona o espaço favorito da casa.

Perdi-me no tempo e chorei momentos que não faziam parte da minha história, mas não se engane, o ficcional não construirá percepções fantasiosas da realidade, pelo contrário, risos de singelos momentos, lágrimas de indecisão; desisto ou enfrento? Mas claro, não anulei a fantasia, incomparável sensação de voar sobre terras e mares, de ser livre dos fardos do mundo real.

Após o caos da descoberta e da construção do ser, me deparo com o desafio da vida: Suportar a realidade! A alma prossegue vazia (ainda que saciando os prazeres), quebro as regras do Estado? Álcool e amores sem compromisso? Não descarto as possibilidades, porém, incomparável êxtase em confeccionar o mundo, me encontro cheio de ideias, desejos de revolução, histórias de amor, meu quadro é terminal, meu tratamento: um papel e uma caneta na mão.

Como qualquer outro no ônibus lotado ou estagnado em alguma fila, desejaria dormir por causa do cansaço, mas hoje não, talvez amanhã no vidro embaçado, anulo o sono no prazer de transformar o habitual em poesia. Olho ao redor, provavelmente pensamentos distantes, no passado e no futuro, raramente a presença no hoje, raramente a presença no mundo, meu autorretrato.

Olhos atentos aos detalhes, do tipo jogado na grama olhando as estrelas, fones no ouvido, toques sutis e acentuados ao piano (outrora rock e mpb). As Inspirações surgem durante os mais inusitados momentos do dia, além de valiosos instantes desconexos, aliás, não conseguiria sem quebrar a rotina. Os dias passam, as falanges seguem regendo a expressividade da alma, e o livro na cabeceira da cama aguardando o fim de cada agenda lotada.

Diego Rodrigues Silva Aguiar
© Todos os Direitos Reservados