O tempo

O tempo é passageiro
Mais do que o pensamento
Acerca do próprio tempo

Os dias passam voando
Como pássaros ao horizonte
Mas os pássaros param
O tempo não

Faça frio ou faça sol
Estejamos bem ou estejamos mal
O tempo não está nem aí
Se o acompanhamos ou não

Eis então os maiores desafios
Fazer do tempo um grande amigo
Ressignificar segundo por segundo
Da ampulheta que rege o mundo

Pois o tempo também constrói
No fim de tarde eis o pôr do sol
Uma obra de arte nos céus
Fim também é conclusão

Se no instante houver mágoas
E das mágoas fotos rasgadas
O tempo aperta a saudade
Reconstrói a boa amizade

O tempo nos floresce
Nos presenteia com flores
E ainda que haja espinhos
Não deixam de ser flores

Quão peculiar ensinamento
Onde o tempo nos diz não
E este é melhor que o sim

Pois no fim, o segredo da vida
É não temer a brevidade
Mas viver instante por instante
Como uma breve eternidade

Diego Rodrigues Silva Aguiar
© Todos os Direitos Reservados

Entre o abismo e o ismo

O relógio desperta, levanto da cama e caminho até o espelho — Ainda com as vistas embaçadas da noite mal dormida. Acendo a luz e abro a torneira; água no rosto para reanimar as pupilas sonolentas e receber o vislumbre da manhã. Quando finalmente penso que seguiria com o preparo do café e o trabalho rotineiro: Espanto! Dois anjos no meu ombro, e como assim semelhantes? Só poderia ser um sonho, ou melhor, a continuação do último — Apesar do esforço para despertar não fazer efeito — Beliscos não adiantaram, atitudes contrárias ao sonho também não, estaria eu em um segundo sonho dentro do primeiro? Ou então vivenciando o princípio de uma loucura generalizada? Após o questionamento, eis que surge uma voz contemplando o silêncio:

— Por que o espanto, se a realidade é mais assustadora do que o mundo da fantasia? — Estagnei após a fala.

— Somos a sua consciência, a forma como você enxerga e interpreta as circunstâncias — Não aguentando o insulto, recriminei:

— Circunstâncias? O mundo é o que é por desobediência sua! — Me referindo ao anjo caído — O que seria de nós se não a misericórdia?

— Que aquele que lhe enviou seja engrandecido! — Agora, com reverência ao anjo de luz.

Não me importei com a suposta alucinação, sonho ou contato com o outro mundo. Comprei a causa, pois ainda que alucinando, teria percepções em uma consciência paralela à realidade, e isto era como encontrar ouro, já que a rotina tem o dom de neutralizar a fantasia. Sendo um sonho, como de costume escreveria a respeito, agora, um contato com o outro mundo seria algo fantástico, não? — Apesar da possibilidade de alucinar até mesmo em um sonho desses qualquer — Talvez o cansaço da semana, um detalhe vislumbrado anteontem, um pensamento desconexo, milhares de possibilidades… Após a conclusão, retornei ao diálogo, dando voz a fala angelical, cujo propôs-me:

— O que vê diante de si é própria projeção! A personificação ética e moral do que deliberadamente és, não existe nós, apenas nada mais nada menos do que você mesmo!

— Eu não seria capaz de tanta maldade e crueldade! — Respondi, supondo o fim do diálogo, mas logo surpreendido na réplica:

— Apesar da capacidade de raciocínio cognitivo, os instintos destorcem a racionalidade, reduzindo-o ao mero animal; disposições fundamentais na sobrevivência, porém, cabe superá-las no convívio coletivo, sendo a maior falha e desafio da humanidade.

— Pense no racismo, originado de sentimentos de superioridade, a desigualdade de desejos ambiciosos e a guerra de pretensões imperialistas. Em contrapartida, o tratado de paz é o sonho do agora, na premissa do assombro do passado e do medo do futuro.

— Os homens são seus próprios deuses e demônios, tanto no primeiro pecado, quanto no juízo final, nas infinitas possibilidades o ser humano seria réu da própria criação…

Nesse instante, lembrei-me de outras circunstâncias, cujo apesar de indeferir, concluía a indagação de outrem. Entretanto, desta vez uma incógnita surgia no lugar do que antes exclamava. As palavras eram objetivas, mesmo assim, a oratória transpirava fascínio, como se a realidade por trás das falas pudesse cegar, mas não impedir a contemplação. E então, não hesitei, se queres provar tal, que seja com evidências, palavras não são de nada, exigi na mais completa audácia e ousadia:

— Leve-me ao criador! Transcenda-me ao conhecimento e assim serei capaz de crer — Aguardando ansiosamente a resposta que transformaria a minha vida, escutei:

— É a morte o que realmente deseja?

— Pelo contrário, viver! — Retruquei, novamente com ousadia na fala.

— Não podes! — Finalizaram, na mais fria e possível objetividade.

— Por que não se tudo podem? — Insisti, até que enfim, revelaram-me:

— A morte é o elo, a ponte entre o material e o conhecimento, como supor do horizonte com a ponte erguida, além do mais, como provar?

— Simples! — Refutei como um deus — Eis os fiéis com as suas crenças e devoções, vidas quebrantadas no tocante ao interior — Da mesma forma, não tardaram na resposta:

— Contemporâneo de outras eras, ou simplesmente rumo ao oriente, garanto-lhe que o que juga salvação, converter-se-ia em temor, já que a tua verdade necessariamente não é a verdade do outro. O ser humano necessita de um criador para suportar o vazio da vida, caso contrário, entraria em colapso por não palpar as razões da existência.

— Teria mesmo a prepotência de universalizar a verdade herdada do tempo e espaço, mesmo diante de milhares de opiniões e ao longo de séculos e séculos? — Plantaram-me a semente do questionamento…

Será que as convicções que defendia com sangue, também foram herdadas por sangue? Será que na minúcia das certezas habitavam imagens inatas, ao invés de ideias mastigadas? Será que enxergaria a vida de outra forma, se por algum motivo do destino, os deuses contemplassem-me com opiniões opostas? — Deveras, perguntas retóricas! — Pois ainda que não tão palpáveis, o eco das emoções transbordando entre si já entoavam tardes a pensar….

— Quer dizer que fui influenciado? — Questionei em êxtase — E em deleite ensinaram-me:

— Você acredita no que possui a necessidade de acreditar…

Me encontrava estupefato, como se caminhando diante o breu, não tropeçasse mais no abismo do medo. Como se havendo um mar e não podendo andar sobre as águas, voasse junto aos pássaros, como se todas as analogias não fossem mais ditas, todavia, subentendidas nos mais variados contextos. Em suma, o deslumbre no desconhecido tornava-se mais autêntico do que o temor nas convicções, porém — Caos! — No lapso de tempo entre a percepção da concordância e o retorno ao diálogo… Prestes a indagar o deslumbre… Perdi os seres de vista!

— Onde estão? — Eufórico olhei ao redor da cozinha.

— Eu não estou ficando louco! — Já aceitando a possível loucura.

— O que faço agora? — Só me restando as tardes a pensar e a ponte aguardar.

— Era um sonho? — Perguntei, mesmo sempre sonhando acordado.

Diego Rodrigues Silva Aguiar

© Todos os Direitos Reservados

Novo normal, tentativa e caos

Durante o tempo em que aguardo no ponto de ônibus, reflito sobre os noticiários. Confesso que um certo medo me consome, visto que o suposto vírus propaga mais rápido que o meu próprio medo. Ao mesmo tempo, amenizo a preocupação, sejamos otimistas, um continente nos separa da propagação… Meu ônibus se aproxima, e no mesmo instante em que subo os degraus rumo ao terminal, nem imagino a subida nos indicadores: um, sete, vinte, cinquenta contaminados, as fronteiras não foram suficientes, pois o comércio carimbou o passaporte para um vírus internacional!
De risadas entretidas a olhares preocupados, os sorrisos mudaram entre o trajeto do primeiro ponto. Alguns passageiros desceram, enquanto outros subiram, eu diria que com aspectos diferentes, um tanto peculiares. Máscaras tornaram-se obrigatórias, álcool em gel uma arma na mão, porém, o caos era quem realmente estava armado, pois novamente surpresa nos indicadores, agora com estudos e previsões de milhões de mortes, o medo tornou-se generalizado, a contaminação um surto mundial…
Muitas coisas aconteceram nos próximos pontos, decretos flexionavam a aglomeração, apesar de no transporte ser a principal, eis as ironias do capitalismo, ironias… Logo, estopins de contradições no novo normal: leitos superlotados, enquanto gozavam com a verba da saúde, governo no leite condensado, já a população sem leitos e nem covas, só sorriso cabisbaixo, sendo que além do lamento pelos mortos, os que lutavam pela vida eram golpeados, com ansiedades, crises e distúrbios psicológicos.
As luzes no ônibus falhavam, ao passo em que um rasgo na sanfona refletia o brilho da noite, era assustador, mas não tinha para onde fugir, era apaixonado por não morrer de fome. O toque de recolher era às dez, mas como chegar às dez se só saía do ônibus às onze? A idealização de isolamento era perfeita, claro, para quem tinha condição financeira, já o isolamento da população era dentro do busão, na perfeita companhia daquele de quem tanto fugia…
Inevitavelmente o mundo questionou a brevidade da vida, e por não prever o amanhã, o hoje tornou-se motivo de relaxamento. Rapidamente as medidas de prevenção foram colocadas em segundo plano, e o novo plano tornou-se aproveitar o restante da vida. Quando me dei conta, o senso comum compartilhava e comentava bate e volta de viagens, a última parada ainda era o terminal, mas como assim no litoral? Novamente estopins de contradições: Isolamento social; a social até com desconhecidos, álcool em gel; nova bebida alcoólica nos barzinhos, máscaras; um protótipo alternativo de sunga, média de mortes; aquela média com os amigos, e o novo normal uma manchete diária no jornal! O que mais poderá acontecer? Sabe lá quem…

Diego Rodrigues Silva Aguiar
© Todos os Direitos Reservados

Contrastes do suposto social

Arranha-céus ofuscam o horizonte
Moldura esculpida do lixo ao luxo
Sonhos e mais sonhos à beira mar
Pesadelo na beira do córrego sujo

Em ônibus lotado a cinco da manhã
Trabalhadores atravessam a cidade
Como ovelhas na presença de lobos
São subjugados como inferioridade

Apesar, vozes ecoam dos findados
Independentemente dos insumos
Talentos escalam o fundo do poço
Olhos sedentos ao topo do mundo

Os proletariados regem as cidades
Mas são discriminados pela sua cor
Como se no branco coexistisse paz
Como se no preto ausentasse amor

Irracional distúrbio segregacionista
No leito de morte somos todos um
Porém, o argumento não convence
Ódio propaga como senso comum

Reivindicações avançam lentamente
Pois os movimentos são dissociados
O único caminho para revolucionar
É o caminho do sangue derramado

Enquanto isso, a indústria estuda
Novas formas de entretenimento…

Diego Rodrigues Silva Aguiar
© Todos os Direitos Reservados

Infindável mundo da descoberta

Luminária ao canto esquerdo, escrivaninha envernizada e ambiente meia luz. De minha parte, olhar enigmático, todos aqueles detalhes já eram habituais, exceto um título dentre todos os outros na estante, que a princípio incomodará. Não me contive, precisava saciar aquela angústia e descobrir o que tinha por trás da capa em brochura, e logo folheando os poemas, as horas tornaram-se minutos, e a velha poltrona o espaço favorito da casa.

Perdi-me no tempo e chorei momentos que não faziam parte da minha história, mas não se engane, o ficcional não construirá percepções fantasiosas da realidade, pelo contrário, risos de singelos momentos, lágrimas de indecisão; desisto ou enfrento? Mas claro, não anulei a fantasia, incomparável sensação de voar sobre terras e mares, de ser livre dos fardos do mundo real.

Após o caos da descoberta e da construção do ser, me deparo com o desafio da vida: Suportar a realidade! A alma prossegue vazia (ainda que saciando os prazeres), quebro as regras do Estado? Álcool e amores sem compromisso? Não descarto as possibilidades, porém, incomparável êxtase em confeccionar o mundo, me encontro cheio de ideias, desejos de revolução, histórias de amor, meu quadro é terminal, meu tratamento: um papel e uma caneta na mão.

Como qualquer outro no ônibus lotado ou estagnado em alguma fila, desejaria dormir por causa do cansaço, mas hoje não, talvez amanhã no vidro embaçado, anulo o sono no prazer de transformar o habitual em poesia. Olho ao redor, provavelmente pensamentos distantes, no passado e no futuro, raramente a presença no hoje, raramente a presença no mundo, meu autorretrato.

Olhos atentos aos detalhes, do tipo jogado na grama olhando as estrelas, fones no ouvido, toques sutis e acentuados ao piano (outrora rock e mpb). As Inspirações surgem durante os mais inusitados momentos do dia, além de valiosos instantes desconexos, aliás, não conseguiria sem quebrar a rotina. Os dias passam, as falanges seguem regendo a expressividade da alma, e o livro na cabeceira da cama aguardando o fim de cada agenda lotada.

Diego Rodrigues Silva Aguiar
© Todos os Direitos Reservados