Novo normal, tentativa e caos

Durante o tempo em que aguardo no ponto de ônibus, reflito sobre os noticiários. Confesso que um certo medo me consome, visto que o suposto vírus propaga mais rápido que o meu próprio medo. Ao mesmo tempo, amenizo a preocupação, sejamos otimistas, um continente nos separa da propagação… Meu ônibus se aproxima, e no mesmo instante em que subo os degraus rumo ao terminal, nem imagino a subida nos indicadores: um, sete, vinte, cinquenta contaminados, as fronteiras não foram suficientes, pois o comércio carimbou o passaporte para um vírus internacional!
De risadas entretidas a olhares preocupados, os sorrisos mudaram entre o trajeto do primeiro ponto. Alguns passageiros desceram, enquanto outros subiram, eu diria que com aspectos diferentes, um tanto peculiares. Máscaras tornaram-se obrigatórias, álcool em gel uma arma na mão, porém, o caos era quem realmente estava armado, pois novamente surpresa nos indicadores, agora com estudos e previsões de milhões de mortes, o medo tornou-se generalizado, a contaminação um surto mundial…
Muitas coisas aconteceram nos próximos pontos, decretos flexionavam a aglomeração, apesar de no transporte ser a principal, eis as ironias do capitalismo, ironias… Logo, estopins de contradições no novo normal: leitos superlotados, enquanto gozavam com a verba da saúde, governo no leite condensado, já a população sem leitos e nem covas, só sorriso cabisbaixo, sendo que além do lamento pelos mortos, os que lutavam pela vida eram golpeados, com ansiedades, crises e distúrbios psicológicos.
As luzes no ônibus falhavam, ao passo em que um rasgo na sanfona refletia o brilho da noite, era assustador, mas não tinha para onde fugir, era apaixonado por não morrer de fome. O toque de recolher era às dez, mas como chegar às dez se só saía do ônibus às onze? A idealização de isolamento era perfeita, claro, para quem tinha condição financeira, já o isolamento da população era dentro do busão, na perfeita companhia daquele de quem tanto fugia…
Inevitavelmente o mundo questionou a brevidade da vida, e por não prever o amanhã, o hoje tornou-se motivo de relaxamento. Rapidamente as medidas de prevenção foram colocadas em segundo plano, e o novo plano tornou-se aproveitar o restante da vida. Quando me dei conta, o senso comum compartilhava e comentava bate e volta de viagens, a última parada ainda era o terminal, mas como assim no litoral? Novamente estopins de contradições: Isolamento social; a social até com desconhecidos, álcool em gel; nova bebida alcoólica nos barzinhos, máscaras; um protótipo alternativo de sunga, média de mortes; aquela média com os amigos, e o novo normal uma manchete diária no jornal! O que mais poderá acontecer? Sabe lá quem…

Diego Rodrigues Silva Aguiar
© Todos os Direitos Reservados

Contrastes do suposto social

Arranha-céus ofuscam o horizonte
Moldura esculpida do lixo ao luxo
Sonhos e mais sonhos à beira mar
Pesadelo na beira do córrego sujo

Em ônibus lotado a cinco da manhã
Trabalhadores atravessam a cidade
Como ovelhas na presença de lobos
São subjugados como inferioridade

Apesar, vozes ecoam dos findados
Independentemente dos insumos
Talentos escalam o fundo do poço
Olhos sedentos ao topo do mundo

Os proletariados regem as cidades
Mas são discriminados pela sua cor
Como se no branco coexistisse paz
Como se no preto ausentasse amor

Irracional distúrbio segregacionista
No leito de morte somos todos um
Porém, o argumento não convence
Ódio propaga como senso comum

Reivindicações avançam lentamente
Pois os movimentos são dissociados
O único caminho para revolucionar
É o caminho do sangue derramado

Enquanto isso, a indústria estuda
Novas formas de entretenimento…

Diego Rodrigues Silva Aguiar
© Todos os Direitos Reservados

Infindável mundo da descoberta

Luminária ao canto esquerdo, escrivaninha envernizada e ambiente meia luz. De minha parte, olhar enigmático, todos aqueles detalhes já eram habituais, exceto um título dentre todos os outros na estante, que a princípio incomodará. Não me contive, precisava saciar aquela angústia e descobrir o que tinha por trás da capa em brochura, e logo folheando os poemas, as horas tornaram-se minutos, e a velha poltrona o espaço favorito da casa.

Perdi-me no tempo e chorei momentos que não faziam parte da minha história, mas não se engane, o ficcional não construirá percepções fantasiosas da realidade, pelo contrário, risos de singelos momentos, lágrimas de indecisão; desisto ou enfrento? Mas claro, não anulei a fantasia, incomparável sensação de voar sobre terras e mares, de ser livre dos fardos do mundo real.

Após o caos da descoberta e da construção do ser, me deparo com o desafio da vida: Suportar a realidade! A alma prossegue vazia (ainda que saciando os prazeres), quebro as regras do Estado? Álcool e amores sem compromisso? Não descarto as possibilidades, porém, incomparável êxtase em confeccionar o mundo, me encontro cheio de ideias, desejos de revolução, histórias de amor, meu quadro é terminal, meu tratamento: um papel e uma caneta na mão.

Como qualquer outro no ônibus lotado ou estagnado em alguma fila, desejaria dormir por causa do cansaço, mas hoje não, talvez amanhã no vidro embaçado, anulo o sono no prazer de transformar o habitual em poesia. Olho ao redor, provavelmente pensamentos distantes, no passado e no futuro, raramente a presença no hoje, raramente a presença no mundo, meu autorretrato.

Olhos atentos aos detalhes, do tipo jogado na grama olhando as estrelas, fones no ouvido, toques sutis e acentuados ao piano (outrora rock e mpb). As Inspirações surgem durante os mais inusitados momentos do dia, além de valiosos instantes desconexos, aliás, não conseguiria sem quebrar a rotina. Os dias passam, as falanges seguem regendo a expressividade da alma, e o livro na cabeceira da cama aguardando o fim de cada agenda lotada.

Diego Rodrigues Silva Aguiar
© Todos os Direitos Reservados