Entre o abismo e o ismo

O relógio desperta, levanto da cama e caminho até o espelho — Ainda com as vistas embaçadas da noite mal dormida. Acendo a luz e abro a torneira; água no rosto para reanimar as pupilas sonolentas e receber o vislumbre da manhã. Quando finalmente penso que seguiria com o preparo do café e o trabalho rotineiro: Espanto! Dois anjos no meu ombro, e como assim semelhantes? Só poderia ser um sonho, ou melhor, a continuação do último — Apesar do esforço para despertar não fazer efeito — Beliscos não adiantaram, atitudes contrárias ao sonho também não, estaria eu em um segundo sonho dentro do primeiro? Ou então vivenciando o princípio de uma loucura generalizada? Após o questionamento, eis que surge uma voz contemplando o silêncio:

— Por que o espanto, se a realidade é mais assustadora do que o mundo da fantasia? — Estagnei após a fala.

— Somos a sua consciência, a forma como você enxerga e interpreta as circunstâncias — Não aguentando o insulto, recriminei:

— Circunstâncias? O mundo é o que é por desobediência sua! — Me referindo ao anjo caído — O que seria de nós se não a misericórdia?

— Que aquele que lhe enviou seja engrandecido! — Agora, com reverência ao anjo de luz.

Não me importei com a suposta alucinação, sonho ou contato com o outro mundo. Comprei a causa, pois ainda que alucinando, teria percepções em uma consciência paralela à realidade, e isto era como encontrar ouro, já que a rotina tem o dom de neutralizar a fantasia. Sendo um sonho, como de costume escreveria a respeito, agora, um contato com o outro mundo seria algo fantástico, não? — Apesar da possibilidade de alucinar até mesmo em um sonho desses qualquer — Talvez o cansaço da semana, um detalhe vislumbrado anteontem, um pensamento desconexo, milhares de possibilidades… Após a conclusão, retornei ao diálogo, dando voz a fala angelical, cujo propôs-me:

— O que vê diante de si é própria projeção! A personificação ética e moral do que deliberadamente és, não existe nós, apenas nada mais nada menos do que você mesmo!

— Eu não seria capaz de tanta maldade e crueldade! — Respondi, supondo o fim do diálogo, mas logo surpreendido na réplica:

— Apesar da capacidade de raciocínio cognitivo, os instintos destorcem a racionalidade, reduzindo-o ao mero animal; disposições fundamentais na sobrevivência, porém, cabe superá-las no convívio coletivo, sendo a maior falha e desafio da humanidade.

— Pense no racismo, originado de sentimentos de superioridade, a desigualdade de desejos ambiciosos e a guerra de pretensões imperialistas. Em contrapartida, o tratado de paz é o sonho do agora, na premissa do assombro do passado e do medo do futuro.

— Os homens são seus próprios deuses e demônios, tanto no primeiro pecado, quanto no juízo final, nas infinitas possibilidades o ser humano seria réu da própria criação…

Nesse instante, lembrei-me de outras circunstâncias, cujo apesar de indeferir, concluía a indagação de outrem. Entretanto, desta vez uma incógnita surgia no lugar do que antes exclamava. As palavras eram objetivas, mesmo assim, a oratória transpirava fascínio, como se a realidade por trás das falas pudesse cegar, mas não impedir a contemplação. E então, não hesitei, se queres provar tal, que seja com evidências, palavras não são de nada, exigi na mais completa audácia e ousadia:

— Leve-me ao criador! Transcenda-me ao conhecimento e assim serei capaz de crer — Aguardando ansiosamente a resposta que transformaria a minha vida, escutei:

— É a morte o que realmente deseja?

— Pelo contrário, viver! — Retruquei, novamente com ousadia na fala.

— Não podes! — Finalizaram, na mais fria e possível objetividade.

— Por que não se tudo podem? — Insisti, até que enfim, revelaram-me:

— A morte é o elo, a ponte entre o material e o conhecimento, como supor do horizonte com a ponte erguida, além do mais, como provar?

— Simples! — Refutei como um deus — Eis os fiéis com as suas crenças e devoções, vidas quebrantadas no tocante ao interior — Da mesma forma, não tardaram na resposta:

— Contemporâneo de outras eras, ou simplesmente rumo ao oriente, garanto-lhe que o que juga salvação, converter-se-ia em temor, já que a tua verdade necessariamente não é a verdade do outro. O ser humano necessita de um criador para suportar o vazio da vida, caso contrário, entraria em colapso por não palpar as razões da existência.

— Teria mesmo a prepotência de universalizar a verdade herdada do tempo e espaço, mesmo diante de milhares de opiniões e ao longo de séculos e séculos? — Plantaram-me a semente do questionamento…

Será que as convicções que defendia com sangue, também foram herdadas por sangue? Será que na minúcia das certezas habitavam imagens inatas, ao invés de ideias mastigadas? Será que enxergaria a vida de outra forma, se por algum motivo do destino, os deuses contemplassem-me com opiniões opostas? — Deveras, perguntas retóricas! — Pois ainda que não tão palpáveis, o eco das emoções transbordando entre si já entoavam tardes a pensar….

— Quer dizer que fui influenciado? — Questionei em êxtase — E em deleite ensinaram-me:

— Você acredita no que possui a necessidade de acreditar…

Me encontrava estupefato, como se caminhando diante o breu, não tropeçasse mais no abismo do medo. Como se havendo um mar e não podendo andar sobre as águas, voasse junto aos pássaros, como se todas as analogias não fossem mais ditas, todavia, subentendidas nos mais variados contextos. Em suma, o deslumbre no desconhecido tornava-se mais autêntico do que o temor nas convicções, porém — Caos! — No lapso de tempo entre a percepção da concordância e o retorno ao diálogo… Prestes a indagar o deslumbre… Perdi os seres de vista!

— Onde estão? — Eufórico olhei ao redor da cozinha.

— Eu não estou ficando louco! — Já aceitando a possível loucura.

— O que faço agora? — Só me restando as tardes a pensar e a ponte aguardar.

— Era um sonho? — Perguntei, mesmo sempre sonhando acordado.

Diego Rodrigues Silva Aguiar

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